INTERAÇÃO SOCIAL, AMIZADE E INCLUSÃO.
Transformações socioculturais e
político-econômicas promovem diversas possibilidades para as relações de
amizade e, em particular, no ambiente escolar, com o advento da inclusão de
pessoas com deficiência em escolas regulares. De fato, sendo a escola,
geralmente, a segunda unidade social com a qual as crianças entram em contato,
esta atua como uma facilitadora de interações entre elas.
Para Piaget toda interação social
aparece sob a forma de regras, de valores e de símbolos definidos na própria
sociedade. Em toda sociedade, portanto, existem escalas de valores provenientes
de diversas fontes (interesses e gostos individuais, valores coletivos
impostos, como a moda, regras morais, etc.). Assim, o fator social se apresenta
sob a forma de troca desses valores.
Contudo, mesmo na relação entre pares,
as trocas realizadas nem sempre são simétricas, visto que o equilíbrio é
influenciado também pela afetividade, que determina a forma como cada uma das
partes interpreta os serviços prestados. A afetividade, para Piaget, é
constituída pelos sentimentos propriamente ditos, que a todo o momento
interagem com os processos cognitivos. Assim, para o autor, não existe um
estado cognitivo puro, nem um estado afetivo puro. Mesmo na simpatia, na
amizade ou no amor há elementos discriminativos e de compreensão mútua, uma vez
que "as pessoas são centros de causalidade e são fonte de toda
classe de ideias cognitivas tanto quanto de sentimentos".
Assim, ter amigos e manter amizades
representam elementos essenciais para o desenvolvimento saudável do ser humano,
pois os envolvidos estabelecem trocas afetivas, cognitivas e contribuem para o
desenvolvimento do companheiro. Possuir amigos, então, geralmente proporciona
maior estabilidade, empatia e autoconfiança. De acordo com Piaget:
"(...) se a criança sente necessidade de socializar seu pensamento,
esta necessidade deve, na verdade, poder satisfazer-se por completo quando a
criança tem amigos de sua idade, que ela vê diariamente, e com os quais ela
brinca sem constrangimentos e sem se policiar".
De uma perspectiva social, pode-se
argumentar que nas relações de amizade está a possibilidade de uma sociedade
democrática e igualitária, baseada em processos como cooperação e apoio social,
que são metas do mundo contemporâneo. Portanto, promover uma cultura das
amizades nas quais pessoas com deficiência, de qualquer ordem, não sejam
rejeitadas, condiz com essas metas.
DINÂMICA DE GRUPO
CRIANÇAS DO 3º ANO DO ENSINO FUNDAMENTAL.
CRIANÇAS DO 3º ANO DO ENSINO FUNDAMENTAL.
Inicialmente vamos conhecer através de
entrevista com o docente, nosso aluno especial, o “Daniel” aluno com Deficiência
Intelectual.
Quais as potencialidades e dificuldades do aluno?
O Daniel tem um potencial muito grande
e força de vontade de aprender, porém tem dificuldades de concluir o que é
proposto, quando sozinho.
E quanto à comunicação e expressão?
O Daniel tem uma ótima comunicação e
sua oralidade é muito boa.
Quanto à organização e autonomia?
Ele tem autonomia e desenvolve o que é
proposto com auxílio dos amigos.
Quanto à socialização?
Ele se enturma com a sala e tem um
ótimo relacionamento com todos, alunos e funcionários da unidade escolar.
Cite algumas atividades realizadas para caracterização do aluno:
O Daniel tem um rendimento razoável na
sala, tem uma boa cópia, porém ainda não faz leitura sendo classificado como
aluno pré-silábico.
Como lida com os diferentes perfis de alunos em sala de aula?
Com a socialização, mostrando que na
sala somos todos “iguais”.
Como é seu trabalho com o Daniel? Você faz algum tipo de adaptação ou plano especial de aulas?
Esse aluno tem um bom desenvolvimento
na aprendizagem, sendo assim, acompanha a sala, fazendo as mesmas atividades.
Você (ou sua escola) tem tido algum suporte para lidar com os casos de
inclusão?
Sim, acompanhamento do Atendimento
Educacional Especializado, assessora pedagógica e psicopedagoga.
PERGUNTAS AOS ALUNOS PRESENTES
O que é um amigo especial?
Amigo é quem brinca, fala com agente,
ajuda...
Vocês têm algum amigo especial,
diferente?
O Daniel.
Por que ele é especial?
Ele é muito legal, brinca com a gente e
é bonzinho.
Quais as brincadeiras que vocês e seus
amigos mais gostam?
Pular corda, pega-pega,
esconde-esconde, amarelinha, polícia e ladrão, jogar bola...
Como vocês fazem amigos?
Sendo legal, com eles, aí eles serão
amigos.
Vocês acham o Daniel diferente?
O Daniel é bonzinho, tem criança que só
fala palavrão, ele ajuda a professora, não ri da gente e é feliz.
ALGUNS ASPECTOS METODOLÓGICOS
A autonomia da amizade como área de
estudos encontra sua base não apenas no reconhecimento da especificidade de
suas propriedades e na construção de um corpo teórico específico, mas também em
uma literatura que já trata especificamente da metodologia de estudo sobre a
amizade, no presente caso, particularmente no período da infância.
Apesar dos estudos sobre a amizade
representarem apenas parte dos estudos sobre as relações sociais na infância,
um número significativo de trabalhos discute especificamente aspectos
metodológicos da pesquisa sobre a amizade nesse período. Estes trabalhos evidenciam
a tendência para a diversidade ou pluralidade metodológica. As discussões
metodológicas incluem o desenvolvimento de escalas para medir pontos específicos
(Rotenberg & Morgan, 1995), a validação de instrumentos de pesquisa
(Camaioni, Baumgartner & Perugini, 1998), aspectos psicométricos e
sociométricos ligados à metodologia (Erdley, Nangle & Gold, 1998) e formas
de medir as amizades (Schneider & Greenman, 2003). Diversas técnicas têm
sido propostas na investigação da amizade na infância, como a utilização de
histórias (Smorti & Pagnucci, 2003), de desenhos (Bombi, Cannoni &
Pinto, 2003) e de grades de observação (Baumgartner & Camaioni, 1995). Face
à diversidade de procedimentos metodológicos sobre a amizade e outras relações
com pares na infância, alguns trabalhos específicos têm apresentado uma revisão
da metodologia (Yugar & Shapiro, 2001).
As diversas propostas metodológicas
presentes na literatura se apoiam em diferentes orientações teóricas. De forma
geral, há uma tendência para a diversificação metodológica como reflexo da
pluralidade teórica. A busca de uma “ciência do relacionamento da amizade”,
como subárea de uma “ciência do relacionamento interpessoal” representa um
desafio, no sentido de buscar integrar contribuições de diferentes origens
teóricas, com reflexos nos procedimentos metodológicos.
A pesquisa sobre a amizade
na infância utiliza algumas dimensões tipicamente empregadas nos estudos sobre
o relacionamento interpessoal, como similaridade, simetria, cooperação, apoio
social, competição, conflito e agressividade. Estas, por vezes, são Psicologia
da amizade na infância Interação em Psicologia, Curitiba, jul./dez. 2005, (9)2,
p. 285-294 289 no ambiente escolar também gera atitudes mais positivas em
relação à escola (Alles-Jardel, Schneider & Boutry, 2002). Finalmente,
amizade e competência social têm sido estudados com vistas ao ajuste escolar.
Alguns autores verificaram que crianças com amigos recíprocos possuem índices
superiores de competência social quando comparadas a crianças sem amigos
recíprocos. O número de amizades recíprocas também está associado com
competência social. As amizades na escola contribuem para um melhor ajustamento
da criança, além de trazer benefícios para o rendimento escolar.
AMIZADES – CASOS ESPECIAIS
Os casos especiais incluem a amizade
entre crianças com desenvolvimento atípico devido à presença de necessidades
especiais (deficiência física ou mental) e os casos em que a criança enfrenta
situações particulares, como ser vítima de abuso ou rejeição, estar enferma, ou
em condições psicológicas alteradas, como no caso da depressão.
A amizade interfere diretamente na
qualidade de vida da criança, inclusive a com necessidades especiais. A
presença de deficiência física dificulta o estabelecimento e a manutenção de
amizades devido a diversas limitações (Mulderij, 1997). Apesar das crianças típicas
apresentarem atitudes favoráveis em relação a essas crianças, elas também
percebem suas dificuldades de relacionamento (Tamm & Prellwitz, 2001), cujos
efeitos sociais são menores quando a deficiência física é temporária (Weiserbs
& Gottlieb, 2000). A deficiência mental também afeta as relações de amizade,
apesar de ainda não se compreender claramente o papel da etiologia ou o tipo de
deficiência (Freeman & Kasari, 1998). Crianças típicas consideram difícil manter
a amizade com portadores de deficiências devido a limitações na comunicação e
problemas de comportamento (Lee, Yoo & Bak, 2003). Amizades recíprocas
envolvendo uma criança com problemas de aprendizagem apresentam menos comunicação
(verbal e não-verbal) e colaboração na tomada de decisões, troca afetiva
limitada, baixo nível de entrosamento na tarefa e distribuição hierárquica e
assimétrica de papéis, comparáveis àquelas entre crianças de idades diferentes
(Siperstein, Leffert & Wenz-Gross, 1997).
Cada deficiência afeta a amizade de
modo particular, mas, geralmente, não as impedem. Na Síndrome de Down, as
amizades foram qualificadas como “emergentes”, assemelhando-se aos
relacionamentos precursores da amizade entre crianças típicas, seguindo
cronologicamente as unilaterais e antecedendo as verdadeiras no desenvolvimento
social (Freeman & Kasari, 2002). Nas crianças autistas, as amizades são de
qualidade inferior, faltando companheirismo, segurança, confiança e ajuda,
trazendo menor satisfação (Bauminger & Kasari, 2000). Crianças com deficiência
de aprendizagem apresentaram menos amigos mútuos, mais amigos com déficit de
aprendizagem, um número maior de amigos mais jovens e relacionamentos menos
estáveis. Quanto à qualidade do relacionamento, houve mais conflito e problemas
de reparo no relacionamento (Wiener & Schneider, 2002).
Estratégias de facilitação de amizades
entre crianças sem e com deficiência (atraso mental) foram observadas em mães
destas crianças (Turnbull, Pereira & Blue-Banning, 1999). Essas crianças
apresentam relações limitadas com amigos em casa (Geisthardt, Brotherson &
Cook, 2002). Na escola, crianças em programas inclusivos apresentaram número de
amigos semelhante às típicas quando as classes não concentravam crianças com
deficiência (Buysse, Goldman & Skinner, 2002). Crianças com necessidades
especiais mantêm relações de amizade, apesar das dificuldades geradas por sua
própria condição.
Os processos de rejeição (pelos pares)
e abuso (por adultos), assim como os estados de depressão e solidão, afetam as
amizades que, por sua vez, influenciam as consequências destes processos e
estados. Crianças rejeitadas pelos pares têm amizades, ainda que com qualidade
inferior (Brendgen, Little & Krappmann, 2000). A amizade também é um
moderador dos efeitos da depressão e solidão (Martin, Cole, Clausen, Logan
& Strosher, 2003; Nangle, Erdley, Newman, Mason & Carpenter, 2003),
inclusive em crianças que sofreram abuso grave (Howe & Parke, 2001) ou naquelas
que são consideradas retraídas (Schneider, 1999; Doll, Murphy & Song,
2003). Além disso, os amigos são informantes de sintomas depressivos de outra
criança (Swenson & Rose, 2003). A experiência de ter sofrido abuso afeta
negativamente a amizade (Parker & Herrera, 1996). Por sua vez, as amizades atenuam
suas possíveis conseqüências para a vida da criança. Do ponto de vista de saúde
mental, a amizade parece ter efeitos positivos em crianças que sofreram abuso
ou rejeição pelos pares e contribuem para a redução de estados de depressão e
solidão. Por sua vez, rejeição, abuso, depressão e solidão também afetam o
estabelecimento de amizades, dificultando, mas não impedindo, seu
desenvolvimento.
CONSIDERAÇÕES
A inclusão escolar é um processo que
envolve questões legais, técnicas e didático-pedagógicas, mas, a todo momento,
valores morais, sentimentos e crenças ideológicas (de todos os envolvidos)
interferem nesse processo. Assim, apesar de muitos estudos sobre inclusão
escolar terem sido realizados sob a ótica de professores, pais e diretores, a
presente pesquisa aponta para a necessidade de também compreender a experiência
sob o olhar das crianças nesse contexto.
A escola é um lugar em que as crianças
têm a oportunidade de conviver com outras de mesma faixa etária e estabelecer
relações de troca que permitem o aprendizado de regras sociais e o
desenvolvimento, de forma geral. Piaget considera que a criança pode socializar
seu pensamento, de forma completa, quando tem amigos de sua idade, com os quais
convive diariamente e brinca sem constrangimentos. Nessas brincadeiras e trocas
entre amigos, as crianças vão construindo suas escalas de valores de troca
similarmente, o que é indispensável para o equilíbrio dessas interações.
As relações entre amigos,
diferentemente de outras relações, não são impostas. Essa possibilidade de
escolha envolve a vontade de se aproximar ou distanciar de determinadas
pessoas. De acordo com Queiroz, na teoria piagetiana, a vontade de um indivíduo
pode ser entendida como o seu poder de regulação de sentimentos espontâneos,
afetos perceptivos, simpatias ou antipatias.
“Nomes dos alunos e docentes fictícios”.

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